terça-feira, 26 de março de 2013

Resumo da História do Rádio no Brasil !!




RESUMO

   Este artigo tem como objetivo discutir os novos sentidos cotidianos criados pelo rádio.
A partir da análise das cartas dos ouvintes da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, em
fins dos anos de 1920, identificaremos a criação de percepções e sensibilidades relativas
à novidade que era a prática de ouvir rádio. Os usos do veículo como tecnologia criaram
uma comunidade de ouvintes diferenciada, com gostos diversos, e que manifestaram
suas preferências em relação à programação, criando uma disputa pela apropriação do
conteúdo da emissora.
        As cartas dos ouvintes analisadas mostram que a manifestação
dos gostos pelo popular ou pelo erudito transformaram-se em representações coletivas,
que percebiam o rádio como espaço de representatividade e de legitimidade. O som
amplificado, irradiado pela tecnologia do rádio, passa a ser o mediador das relações de
proximidade entre o público e o veículo.


PALAVRAS-CHAVE: História do rádio no Brasil; Rádio Sociedade do Rio de
Janeiro; Tecnologias; Música popular e erudita.


No final dos anos 1920, os novos sons propagados pelo rádio pareciam estar
totalmente adaptados ao movimento cotidiano dos indivíduos, fosse daqueles que
possuíam um aparelho de galena, caseiro, ou dos que optaram pela fabricação ou
compra dos rádios com suportes materiais mais sofisticados3
                                                                                                                                                                            Em 1926, Roquete-Pinto
estimava que já existissem 30 mil aparelhos em todo o país. (FEDERICO, 1982) E uma
análise ainda que superficial dos pedidos de licença para aquisição de receptores mostra
o crescimento progressivo e ininterrupto durante toda a década de 1920. Segundo o
Relatório Ministerial de Viação de Obras Públicas,4
em 1923 o governo contabilizou  536 pedidos de licença. Até dezembro de 1924, o relatório mostra que tinham sido



concedidas 2.469 licenças e, em 1925, somaram-se mais 1.070 solicitações, totalizando,
no fim de 1925, 3.539 aparelhos. Já no ano de 1926 somaram-se mais 426 licenças.


Em 22 de abril de 1929, o ouvinte J. Dias enviou uma carta aos diretores da
Rádio Sociedade do Rio de Janeiro com o intuito de defender a irradiação de músicas
populares na emissora, mais especificamente de músicas ligeiras na hora do almoço
para “não comprometer a digestão da feijoada”. J. Dias refere-se aos destinatários com
uma linguagem coloquial. O ouvinte mostra-se também otimista em relação à relevância
do rádio para o país.


[...] Louvavel portanto tao importante emprehendimento, e muitos são
os meus desejos para que não esmoreça nunca a vontade férrea dos
Srs. Directores, prosseguindo sempre e sempre com a mesma
tenacidade, para melhorar o quanto possivel o movimento de Radio
em nosso Paiz, merecedor de todas as grandes conquistas mundiaes.
Assim, portanto, me permitto dar uma opinião sobre a organisação
dos programmas com que nos deliciam. No programma de 12 horas,
(hora do almoço), é bastante variado o mesmo, sendo ouvir-se: tangos,
Fox, operas, clássicos regionaes, etc, etc... Imaginem os Srs.
Directores o prazer que pode sentir uma pessoa que na hora de seu
almoço (cito a mim mesmo), em que, como um bom brasileiro, se
delicia com uma boa feijoada completa... Ha de convir que a ilustre
Directoria, que a feijoada, sendo um prato de difficil digestão, muito
mais se difficultara com as pesadas irradiações... Em summa, acho,
que [...] VV.SS. deveriam organisar programmas especiaes de musicas
ligeiras, quando não fossem puramente nacionaes...


O trecho menciona ainda a variedade da programação da Rádio Sociedade do
Rio de Janeiro. Agora, a parte musical não se limita mais à irradiação de músicas
eruditas e internacionais, como nos primeiros anos de sua existência. Percebemos, aqui,
também, além da clara preferência pelo ritmo popular, a naturalidade e a espontaneidade
com que o ouvinte se dirige aos diretores da emissora


Para Calabre (2002), a relação de proximidade do rádio com o público veio da
mudança de linguagem do veículo na virada da década de 1930, quando se dirige aos
indivíduos como amigos ouvintes, deixando de lado o tratamento de senhores ouvintes,
dado aos radioamadores no seu período experimental na década de 1920. A mudança


Já em 1925, outro ouvinte da Rádio Sociedade, intitulado “Um assignante”,
demonstra também uma sensação de proximidade com a emissora, ao solicitar a música
cantada ao invés da instrumental.


Venho, mui respeitoso como assignante, dessa tão proveitosa
Sociedade, pedir a V.S., que se digne mandar por no programma das
erradiações, maior numero de canto, pois muita musica torna-se
cacete. Esperando ser attendido neste justo pedido, muito vos
agradeço e deicho de assignar para não maguar os componentes da
orchestra dessa tão educada sociedade [...]. N.B. são opiniões
diversas a esse respeito.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


BARBOSA, Marialva. História cultural da imprensa: Brasil. 1800-1900. Rio de
Janeiro, Mauad X, 2010.

BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. São Paulo, Perspectiva, 1987.

BOURDIEU, Pierre. Coisas ditas. São Paulo, Brasiliense, 1990.

CALABRE, Lia. A era do rádio. Rio de Janeiro, Jorge Zahar , 2002.

CHARTIER, Roger. A história ou a leitura do tempo. Belo Horizonte, Autêntica
Editora, 2009.

FEDERICO, Maria Elvira Bonavita. História da Comunicação: rádio e tv no Brasil.
Petrópolis, Vozes, 1982.

MCLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensões do homem. São
Paulo, Cultrix, 2003.

ORTIZ, Renato. A moderna tradição brasileira. São Paulo, Brasiliense, 1988.

SCHAFER, R. Murray. A afinação do mundo. São Paulo, Editora UNESP, 2001.

TRAVASSOS, Elizabeth. Modernismo e música popular brasileira. Rio de Janeiro,
Jorge Zahar, 1999.

Fonte : Michele Cruz Vieira2
Universidade Gama Filho, Rio de Janeiro, RJ











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